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(Português) Final de ano movimentado no Projeto Uerê

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Quem somos nós?

Todos os dias milhões de brasileiros e brasileiras seguem a mesma rotina: se levantam, tomam café da manhã, se vestem, saem para o trabalho e passam seu dia contribuindo para o desenvolvimento do seu país. Não reclamam do péssimo transporte público, da calamidade dos serviços de saúde, de toda sorte de constrangimentos a que são submetidos todos os dias nas nossas cidades.

São os cidadãos comuns, os que não roubam, não ludibriam e não enganam. São os que ainda acreditam que seja possível mudar a estrutura corrupta de muitas das nossas instituições. São aqueles que incrédulos vêem todos os dias a politicagem barata ganhar do bom senso, da ética e do bom andamento da sociedade.

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A verdade no problema educacional público brasileiro

Por que as crianças brasileiras não aprendem? Todos nós temos nos perguntado o porquê de tal tragédia depois das últimas noticias sobre o analfabetismo nas escolas. Nada acontece por acaso.

A associação de múltiplas situações de risco e traumas constantes que ameaçam a integridade corporal e emocional contribui para a fragmentação da seqüência das etapas de desenvolvimento, da aquisição das habilidades necessárias para o aprendizado e para o desempenho dos papéis sociais. A cada dia e progressivamente, as causas e os efeitos traumáticos, quando não interrompidos ou resolvidos, contribuem para a marginalização escolar e exclusão social, para mais discriminação e principalmente para outros episódios de violência e abusos com sintomas pós-traumáticos. Ou ocasionam desfechos trágicos, como desastres, conflitos armados entre facções rivais, “balas perdidas” e a morte precoce.

A proteção de crianças e adolescentes contra qualquer forma de abuso, abandono, exploração e violência está assegurada pela Convenção dos Direitos da Criança da Organização das Nações Unidas, e confirmada pelo Brasil, país signatário deste documento mas infelizmente ainda é muito precária em todos o território nacional.

Também é uma das cinco metas do compromisso firmado em 2002, “Um Mundo para Crianças”, e que desde então tenta ser implementado neste país, apesar das flutuações políticas governamentais e da constante falta de recursos públicos disponíveis para as áreas de Saúde e de Educação.

Desde 1990, existe ainda o Estatuto da Criança e do Adolescente, que assegura os direitos de cidadania e de saúde como prioritários para todas as crianças e adolescentes até os 18 anos de idade. No entanto, a desigualdade social e intelectual, o desemprego, a violência, o tráfico de drogas e a falta de suporte social nas escolas, são alguns dos fatores que mais contribuem para os episódios constantes de maus tratos, abandono e de situações traumáticas nos “bolsões de miséria” urbana. As vivências traumáticas são marcantes e têm um enorme custo social e de impacto na saúde pública e na educação do país.

Os problemas traumáticos que variam da desnutrição crônica primária, a infecções e hospitalizações freqüentes por doenças comuns destas faixas etárias, e ainda a lesões corporais, abusos sexuais e casos de negligência e do abandono familiar vão tendo um efeito cumulativo, crônico e progressivo causando atrasos no desenvolvimento cerebral e cognitivo, transtornos de aprendizado e alfabetização, repetências e exclusão escolar, além do aumento de problemas mentais, como depressão, surtos dissociativos, abusos de drogas e álcool, transtornos de conduta e estresse.

O estresse pode ser definido como um conflito grave ou uma ameaça à liberdade ou integridade física, mental, sexual ou social e é vivenciado quando a pessoa perde uma ou mais fontes importantes de valores afetivos humanos, como a morte de mãe ou pai ou familiar, ou a perda de possessões como a casa, residência ou local onde vive, ou outras conexões de afeto e amor que são valiosas e importantes e que acontecem todos os dias com crianças em zonas de risco social. Daí os fatores de risco maiores com repercussões imediatas e à longo prazo no comportamento e na incapacidade de aprender das crianças e jovens que viveram estes traumas durante seu crescimento.

As causas mais freqüentes enfrentadas por crianças e adolescentes que vivem nas favelas são a morte ou testemunhar assassinatos ou agressões de entes queridos, separação familiar, castigos, torturas, abusos, doença mental ou alcoolismo familiar, e violências entre os grupos armados do tráfico de drogas local. Eventos traumáticos constantes e prolongados afetam toda a dinâmica familiar e comunitária, causando um impacto maior nos mecanismos de adaptação e sobrevivência. Muitas vezes, adolescentes deixam de ir à escola por tiroteios e disputas locais. Ou são “ameaçados” e “marcados de morte” ou tem seus dedos amputados devido a castigos que são impostos, pelos “donos-do-poder” que assim fortalecem sua “autoridade”.

As reações pós-traumáticas são manifestas em diferentes formas e reações que variam de acordo com a faixa etária e a fase do desenvolvimento físico, afetivo, cognitivo e mental, em que se encontra a criança e o adolescente. Se os governantes fossem bem informados o número aviltante de crianças traumatizadas e que não aprendem não deveria ser uma novidade. Isso vem acontecendo há anos e a verdade cruel e vergonhosa vem sendo varrida debaixo do tapete do poder que prefere culpar professores pelo fracasso em vez de terem uma política de educação e de segurança pública que evite tais traumas na sua população infantil. A violência leva a rupturas e interrupções na progressão das fases do crescimento e desenvolvimento, causando um profundo impacto nos mecanismos de adaptação e sobrevivência e bloqueios na aprendizagem.

Crianças e adolescentes que sofreram abusos ou abandono, e que foram traumatizadas podem reagir em condutas de defesa e se tornarem mais agressivos com problemas de comportamento, por dificuldades em controlar seus impulsos e emoções, e levando a outras situações anti-sociais ou criminosas, abusos de drogas, e auto-agressões com mutilações corporais. De que adiantam desenvolvimento econômico se o material humano vem sendo negligenciado e literalmente mal preparado para uma vida futura de trabalho. Educação de qualidade não é somente ler e escrever como pregam, mas sim ter paz para aprender, desenvolver suas potencialidades num ensino com conteúdo que contemple a modernidade e a tecnologia.

Infelizmente ainda estamos longe disso tentando ensinar num modelo de escola ultrapassado e pouco preparado para os desafios dessa população infantil e juvenil que tenta sobreviver nesse país que não consegue mudar suas estruturas políticas.

Yvonne Bezerra de Mello
Coordenadora executiva do Projeto Uerê

Esse espaço é nosso

O blog do Projeto Uerê é como sua escola: um espaço aberto para conversarmos, aprendermos a viver e vivermos para aprender. As possibilidades de troca de informação entre todos os nossos colaboradores, parceiros e alunos é mais do que uma consequência. É fruto de nosso trabalho e missão. Queremos publicar por aqui um registro vivo de nossa metodologia e desafios diários. E contamos com todos vocês para comentar e divulgar.